Friday, September 25, 2009

Escritório

absolutamente compenetrada nas letras
cismava
Joana (j... g... g... d)
procurava, com certa urgência, algum sentido
entre palavras
signos
sapatos e solas
debaixo de um céu cheio de migalhas cintilantes
após um jantar de seres transcendentes,
Joana reproduz na mente o repasto
de olhos fitos nos diamantes pregados no breu
dá tragos no álcool e no cigarro
prega o bico da caneta no bloco de papel pardo

a pedraria brilha,
não nos dedos
nem naquele céu desaluado,
mas na folha de papel pardo
daquelo bloco garatujado

Wednesday, July 08, 2009

Ceias lisboetas

Merendeira, Merendeira
que aqueces as nossas noites com caldo verde
como o Alberto com a mão de vaca com grão
como o Vítor com a cachupa e pastéis de feijão

todos comemos iguarias mestiças
na nossa noite tremendamente lisboeta
uma escuridão condimentada
de África crioula
misturada com o norte de Portugal continental
e enchidos alentejanos

dêem-me chá de menta e cannabis
que me apetece o Magrebe
peixe com ananás do sudeste asiático

todas as delícias do mundo devem ser saboreadas
no abismo do imediato

Sunday, June 21, 2009

Grandes acidentes

É muito difícil despertar a poesia em nós, Vasco.
Tudo isto é muito vago.
A criação é uma incógnita,
Tudo é fictício
Dolorosamente verosimilhante
Mas também obra acaso.
Lembra-te do dia em que pisaste aquele prego enferrujado.
Logo a seguir tiveste de ser vacinado contra o tétano,
Mas tu sabes lá o que é isso.
Sabes lá o que é uma doença
Que te importa qual é a maleita
Desde que acordes de olhos bem abertos
E á noite te deites numa cama bem feita
Acorda desse torpor e escuta o que te diz a tua Andreia:
Não me interessa o teu receio,
Interessa-me a tua ferida, Vasco,
Interessa-me o teu tétano.
Só quero saber do teu pathos
Seja ele a suma verdade do mundo.

Friday, June 19, 2009

coisas roxas

o fingimento pode ser uma coisa tão bonita
como uma violeta escondida
atrás de uma alçapão húmido
no fundo de um vão de escada

algo tão escondido como um olho de vidro roxo
oculto por óculos escuros
algo tão discreto quanto um diamante
no meio dos cubos de gelo
da minha bebida

um boneco que brinca nas mãos de uma menina
lembra a importância do movimento da dança
o modo como me observas
no fechamento do fascínio pela máscara

o amor é fingimento conquanto é abnegação.
a violeta atrás do alçapão húmido é lindíssima
mas o mais belo são as máscaras
que desfilam o tempo todo à nossa frente

Wednesday, June 17, 2009

Sto. António II

Sto. António que me deste
a minha casinha na Bica
trabalho na casa da senhora de Benfica
e o meu marido que está preso em Caxias
Esta noite dá-me a vitória na Avenida
um amante estrangeiro
muito vinho
sardinha viva e prateada

Tuesday, June 16, 2009

Página em branco

quero voltar a encontrar
a minha cara cinzenta
aquela que, no segundo seguinte,
se torna amarela ou magenta
quero conseguir discernir
o branquíssimo cabelo
na cabeleira preta
reencontrar a faceta vermelha
que habita toda a página branca

Thursday, June 11, 2009

Sto. António

Ó meu rico Sto. António
A ti raramente escrevi
Mas se de facto já o fiz, a verdade
É que nunca o fiz por necessidade

Maridos tive-os aos montes
E já matei imensos manjericos
Também noites de festa dementes
Por isso só te peço que não me invejes

Monday, January 05, 2009

É verdade, casei-me!


Sunday, December 21, 2008

Ocidente

Não sei se reparaste
mas caminhei para nascente
quando devia ter caminhado para poente
Aliás, devia caminhar sempre para poente
até chegar a nascente
Como os ponteiros giram da esquerda para a direita
eu caminho para poente
Não como quem persegue o sol
mas como quem foge dele
numa condição de bacante viandante

Wednesday, May 09, 2007

Porras e vinho

Agora que as uvas galopam pelas minhas veias
peço-te
Chupa-me o sangue
Por todo o vermelho do mundo
exorto
Chupa-me o sangue
Por tudo o que vive
o que morre
Por tudo
Deixa-me exangue

Saturday, November 25, 2006

Tempesta

O dia estava
na verdade
negro.
O mar estava medonho.
Olhei-o nos olhos
eternamente tristonhos

Quero apenas dizer-te
que dentro deste eterno encontro verde
nada pode esmorecer.

Tuesday, April 25, 2006

Pupila

Na madrugada
desperta
as minhas pupilas
fitam as tuas pálpebras fechadas
Os teus espasmos
despertam-me para o amorfismo
da minha vigília
nenhum conforto me advém do teu
belo sono moreno.

Esmaga
com o teu corpo
os frutos podres de Morfeu
meu Orfeu.

Friday, February 24, 2006

Aqui continuo, mas com novo texto.

Tuesday, December 27, 2005

Matérias

Quem diria
finalmente a paz
Pedras de sal caem sobre o telheiro
Dir-se-ia
"gotas de chuva!"
Mas não são
Pedras de sal são
Mens são in corpore são
São sãs?
As gotas de chuva,
são sãs?
Sim são.
Parece que sim
Parece que não
São são.
São não.

Wednesday, November 23, 2005

Ulisses regressado

Deitado
imprimo igual
empenho na apatia
e na elaboração de círculos de fumo.
Penélope tece
com esmero e dedicação
mesmo ao meu lado.
Estarei realmente em Ítaca?
Mas Penélope está
tecendo
ao meu lado.
Será esta terra mesmo Ítaca?
Quem deverei consultar:
Hades, Zeus, a Pítia?
Nenhum.
Ítaca será onde
Penélope estiver
a tecer.

Monday, October 31, 2005

Inquietação

O homem que come o caixote do lixo sente
certamente
o sabor amargo das palavras
que
algures
assolam o pensamento de um qualquer sujeito
de uma qualquer sujeita
A pele das batatas ainda não oxidou completamente
Mas o leite
esse
já azedou
Terá secado a mama da mãe?
Treme a mão?

Tuesday, September 27, 2005

Inominável

Da minha boca só sairam estrelas
Tentei
mas um vulcão irrompeu da traqueia
uma onda da faringe
um dragão da laringe
um hipocampo do esófago
(pois no meio de todos estes colossos algum elemento teria de remeter para a doçura)
Procurei dizer-to mas o mundo
que era dentro de mim
toldou-me as palavras
roubou-me todo e qualquer sentido
Nunca to direi
não poderei fazê-lo

Articulei um sonoro
Amo-te
mas este verbo pareceu um sussurro de imperfeição

Friday, September 16, 2005

Praia

Na ponta cinzenta do grafite vejo as ondas do mar revolverem-se selvagens em direcção ao vermelho do meu livro. As árvores cavalgam como que saídas da floresta de Macbeth, o sangue imerge do solo e empapa as outrora rochas, agora areia. Os corpos incandescem nesta praia, como fósforos animados gritam todos os nomes do mundo.
Que frescura é esta que, no meio deste inferno, me refrigera o ânimo, mesmo aqui a meu lado? Sinto-a e, dum momento para o outro, a crianças brincam novamente na água, garras e presas recolhidas.Tudo é pacífico; afinal a areia é branca.
Nem sempre as pessoas têm de permanecer, nem tudo vale a pena. Compreendo a tua sede e a minha - que ocasionalmente estas não poderão ser saciadas. Importa, porém, que se sinta a sede pois esta remeter-nos-á para esse horizonte infinito que tantos recusam fitar, seja por terror ou por mera indiferença. Importa que tenhamos sede porque assim ter-nos-emos sempre um ao outro para tentarmos saciá-la.

Wednesday, September 07, 2005

Hier soir...

Hier soir j'ai fait le trottoir
Restos de pó de papoila
e comprimidos
estropiados
dejectos fossilizados
a cantaria
suja
quase decomposta
a súcia explorando
desengonçados
O meu pé pisa as pedras da calçada da Almirante Reis
ziguezagueia os espectros do Intendente
Bolsos vazios
conforto-me no jejum
afogo-me num copo d'água
calco a bolha que me surgiu entre o corpo e o salto alto da bota

Friday, August 05, 2005

Requiem

estou entre quatro paredes
de pedra bem sólida feitas
este é um daqueles dias que te rogo
Pelo amor de deus magoa-me!
para que me relembre que sou mortal
que toda a dor silenciará
um destes dias
a alguma hora
nalgum lugar
feito de pasta de papel cinzenta
de papier-maché desses jornais
que falam do fogo
da cinza
do fumo que se abateu sobre a cidade
ontem
ontem mesmo
durante o horrível crepúsculo
parece um requiem este opúsculo

Thursday, July 21, 2005

Imersão

No teu perfil mágico
leio o futuro que cintila
na ponta do teu nariz
no marfim dos teus dentes
lindamente desalinhados
nos teus curtos cabelos prateados
A violência doce repousa
entre as nossas pernas
as nossas penas
para sempre redimidas
O calor ondula
o cárcere ao abandonar
o teu corpo
Agora e sempre
o meu voga
ao sabor desta ondulação
nesta eterna noite
de lua cheia
neste banho de
paz irrequieta
mergulhada na esperança
por uma vez vã
por uma vez felicidade concretizada
Cola-se-me a língua ao céu
o palato é um convés
inundado de leite
A comoção arrasta-me
pelas ancas
enquanto nem acredito que estás em mim
Com a voz embargada calo
aquilo que os meus olhos não cessam de dizer

Friday, July 15, 2005

Milonga

Perfumado por todas estas colcheias e semi-colcheias
esta música
este tango
mostram-me que o teu corpo é a minha casa
Quero ver o homem
o céu
o micróbio
o relâmpago através dos teus olhos
as tuas lentes serão o cristal da criação que receberá as minhas lágrimas
onde beberei a água
o vinho
o sangue
o meu concâvo será o teu convexo
enquanto a mão tangir as cordas do contrabaixo
e depois também
enquanto o contente tango conferir
surpreendentemente
doçura e sódio ao nosso coração
Esta noite
antes durante e depois da milonga
vou beijar-te os cotovelos
porque amo os teus cotovelos
Os teus cotovelos são as esquinas mágicas da minha imaginação
o prazer que nunca antes existiu
porque nunca antes me lembrei
porque nunca antes quaisquer cotovelos amei
Não receio a sua aspereza
insisto não os amaciar com azeite
não os marinar em limão
os teus cotovelos precederão
o teu convexo
que se tornou o meu concâvo
os teus cotovelos serão
a minha casa na montanha
morada de predilecção
o meu local de veneração

Monday, July 04, 2005

Estio

Cheiro a canela e canabis
Na tua pele
na minha pele
por simpatia e por amor
o calor transmuta-se em intumescência
o suor potencia a afrodisia
o arrepio tortura prazenteiramente a derme
Os meus olhos observam
transformares-te em deus
o único em que verdadeiramente acredito

Na ausência da chuva
o dilúvio do teu corpo
No estio da minha vida
surge a tua doce seiva
que bebo insaciavelmente
ao som das respirações
Os gatos miam pelas escadinhas
Amália entra pela janela
na velha Mouraria
bem acima da
Rua da Palma

Wednesday, June 29, 2005

Insone

Insone
só verás aquilo que
quiseres ver
Nessas noites incolores que
teimam não encontrar fim
onde a música procura embalar a alma
em algo apenas partilhado
num solipsismo ensimesmado
processo digno de um mocho embalsamado
De modo que
não te querendo
querendo encontrar-me em ti
não consigo vislumbrar aí
sequer uma pontinha de mim

Monday, June 20, 2005

Fim de noite

Uma noite quente e aborrecida
O tédio foi o cálice da mesma.
Debaixo do calor lisboeta
um italiano canta
"Je m'en fous de mon passé".
Je suis d'accord
ma non troppo.
O português que estudou em Treviso
conquista a Alemanha Federal
(ou uma das suas Valquírias)
A brisa lisboeta cai
sobre o meu bloco um tudo nada arménio.

Thursday, June 16, 2005

Comédia

O sono que pesa sobre as pálpebras
Arrasta-me os braços e as pernas.
Num baloiço de penas
de penas apenas
Esse Chronos velho e pançudo
rouba-me o corpo rabudo
para que o meu espírito possa
finalmente
baloiçar.

Nesse continente de querubins sem asas
dotados de helénicos marsapos
as Adrianas têm
de facto
muito por que suspirar.

É quase neste estado
que encontro o gato burguês
Aquele que
por influência dos homens
não gostava de ratos
e não comia gatas.

Tuesday, June 14, 2005

Nicotina

Sem cigarros fica-se sem inspiração.
Quando a doce nicotina não corre nas nossas veias ficamos sem ideias, falta-nos a musa inspiradora do fumo dançarino diante dos olhos tomando a forma de toda a metáfora do mundo.
Se falta o calor da brasa que o nosso beijo reacende de tempos a tempos também as palavras não vêm beijar as pontas dos dedos.
Não queima o papel que envolve o tabaco, não queima o papel deitado por debaixo da ponta incandescente da caneta. Não há incandescência em parte alguma.
Quando quiser colocar termo à vida deixarei de fumar.

Tuesday, May 24, 2005

Contestação

Nunca mais lerei poesia
pois não quero ser plagiadora.
Que se saiba
por toda a eternidade
que sou verdadeira
(Real não, mas verdadeira sim,
por deus!)

No meu bairro ouve-se
a canção dedicada ao
santo padroeiro.
Essa canção soa mais alto
que a minha obrigação
que a minha palavra
anónima não-plagiada
(plagiada fosse)

Que fazer? O santo é popular.
Já eu...


Agradeço ao meu querido André os conselhos que me deu para a versão final destas palavras.

Monday, May 09, 2005

Cassandra revisitada

Que dia será este?
Que noite foi esta?
Uma vela tem de se apagar
quando o pavio chega ao fim
Quando se transformará
esta caverna em útero
e me levará
para lá do prometido
finalmente
todo ele luz
e cintilância
Infinito pleno de
escuridão ou calor insuportáveis
cancerosos e cegantes
ar seco
todo ele pedra
sem néctares da vinha
do pomar
dos arbustos silvestres
sem qualquer perfume que seja

Porém o que se adivinha
e se pressente...

Qual é
no fim de contas
o teu sonho
a maravilha
o sublime
o deleitável
o amor?

Respondo
o amargo que se encontra na tua frente
aquele trago
terrível e letal
obeso e disforme
assaz assustador
o mal-entendido
o mal subentendido
quando nada mais temos
senão carne para oferecer
quando esta é a tua condição
o teu grilhão

Regressaste
então
à caverna
regressaste à cela?
esta estranha morada
toda carne e sangue
construída por
raios solares
lunares
cegantes e cancerosos

Qual é
no fim de contas
o teu transtorno
quando nada ganhaste
ou perdeste
quando tudo foi nevoeiro
ou chama brusceleante
dor inútil e sem móbil?

Maria
nunca partilhes um leito
e muito menos um caos!

Seremos apolíneos
ou dionisíacos?
Fui roubada como Cassandra
Serpentes venenosas e intoxicantes
murmuram aos meus ouvidos
Ganhei e perdi o poder de
escutar ver e tactear
o pesadelo
o temor
aquilo que mortal
algum deseja

Falam-me de papoilas
opiáceas
Que é isso comparado com o que
verdadeiramente
é roubado
porque nos é oferecido

Deus ou demónio:
porque hei-de ser qualquer deles?
Súcubo?
Quem te dera
habitar esse maravilhoso
mundo onírico
habitáculo
de insondáveis surpresas
todas elas dolorosas ou deliciosas
Repulsa: o que é?
Desgosto: uma amostra
do porvir
do pavor

Esta é a tua punição
Não vale mais a pena
porque a tua pena não tem indulgência
ou remissão
porque és fruto do engano
da maior das obscenidades
Adivinho o fim
muito ou pouco doloroso
mas vizinho
Por isso procedo
insistentemente nesta
vigília sem razão
ou motivo
Nesta vigília estéril
como as coisas
estéreis ou hermafroditas
pois ambas são solitárias
como vidro
como massa
como tantos outros objectos que são
estranha e ignorantemente
(porque inconscientemente)
familiares
Todo este papel
todo este metal

Resta uma gargalhada
enquanto não posso pagar o resgate
da lágrima

Wednesday, April 27, 2005

Ilha do tesouro

Jazida no caixão
encarcerada
Implantaram-me
finalmente no planeta
Vermes e novas raízes já me encontraram
Banqueteiam-se agora no
meu ventre
Este foi boceta de Pandora
palco de uma luta sangrenta
gruta onde germinou a semente
cujo fruto verde crianças
e duendes
colheram à paulada
Uma vinha
Ensolarada infectada
Agora é um verdadeiro repasto
Vive
na Ilha de Samoa

Thursday, April 21, 2005

Lilith

Olho-me ao espelho.
Beijo-me mentalmente na boca...
Toco-me no seio, penetro os dedos na cona.
Vejo-me, corpo inteiro
Sinto ainda um ténue olor a frescura
(tão ténue, tão ténue...)
Eu bem gostaria de o eternizar, mas ele esgueira-se
não persiste.

Gostaria de me desdobrar
Para depois
então
me tomar:
não deve haver prazer maior do que o de me autodevorar
fruir da minha própria substância recebendo
também de mim
a resposta

O pico do sublime
O culminar do terror
A transubstanciação do horror.

Monday, April 18, 2005

Hecate

Acabou-se o espaço para mais estrelas.
Acabou-se o tempo, a hora.
Rebentaram as masmorras
e tudo o mais que estava do lado de fora.

O sol extinguiu-se rapidamente, enquanto
a lua brilhou mais um quarto de hora
em guisa de câmara ardente
- irónica função para um astro branco!
Especialmente porque já se tinha finado o tempo
e, portanto, também o quarto de hora!

Só falta desaparecer eu própria nessa eterna noite escura
(agora desprovida de prostitutas)
que sempre foi a minha morada,
o meu covil,
minha eterna amada.

A minha morte não foi súbita,
porém a vida foi um repente.
Acolhe-me esta noite escura onde,
na verdade,
habitei sempre.

Thursday, April 14, 2005

Odisseus

Porquê
para quê
até quando
esta condição de apátrida?
este vaguear inevitável de quem quer mas não consegue
de quem conseguiria mas não quer
criar raízes e
numa aconchegante quietude
abundar
prosperar
procriar…

Porquê e para quê
cheirar cada torrão de terra
(a)palpar cada pedra cada rocha
- porquê picar-me na agulha da roca?

Sim
talvez ame
(talvez inveje)
todos esses objectos sedentários
toda essa comunidade inerte
perene
que
não esperando
espera por mim,
que
servindo-me
me não serve;
Que
nessa sua sonolência
me não deixa dormir
sem
porém
ter qualquer intenção de me manter vigilante.

Tuesday, April 12, 2005

Flora encarnada

Um beijo doce – tudo o que eu gostaria de ter
Um beijo doce e um corpo magro
Clavículas como caules
prestes a romper a terra
a irromper do radículo
Cerejas cor de mamilo
cabelo e pêlo cor de mirtilho
olhos e garras de água
sorriso desmedido
para depositar sobre o túmulo do meu amor.

Friday, April 08, 2005

Silêncio

Do alto do meu desespero
gritei alto
Gritei bem alto
Gritei tão estridentemente
que nada se ouviu
A minha boca escancarou-se
para reproduzir o som de um universo inteiro
sem que
quem quer que fosse
desse por isso.
Um cão passou
mijou
e não deu por nada.
Um homem passou
parou
e só reparou que o cão mijava.
Nada: essa palavra com que todo o meu pensamento, todos os meus pensamentos e versos rimam. Nada: esse sussurro, esse murmúrio ou esse grito ensurdecedor ecoante na minha cabeça, perpassando e trespassando as minhas entranhas. Nada: sossego, vitória ou derrota?

Thursday, April 07, 2005

Fauno

Porquê os lençóis de Verão
quando ainda só estávamos na Primavera
quando tudo haveria de morrer na primeira menstruação
Monção torrencial
Meros intempestuosos aguaceiros
Para quê tanta efabulação
cheiro de tentação?
espelho de solidão
espectro da minha ilusão
Espectro, então!

Monday, April 04, 2005

Sublime

Puxo as persianas do olhar
(ou mesmo antes)
e recordo os teus dedos
a tua gargalhada desgarrada
a tua alma
o teu amor
sem limites.
As ruas que calcorreámos continuam belas
tanto quanto o possível,
a música que ouvíamos
fascinante e surpreendente.
Questiono-me:
Será que estou a sublimar?
a sublimar o teu amor
a tua alma
a tua gargalhada desgarrada
as ruas que calcorreámos
a música...
Sim, sublimo
Porque tudo isto é
decerto
sublime
Porque não duvido que
todas estas coisas
e tantas outras
merecem a minha sublimação.
São sublimes
Inefáveis
Tal como a memória de ti que todos amamos.
Tal como tenho quase a certeza que
de vez em quando
teremos de destruir para saciar os nossos instintos.
E tu sabes o que eu quero dizer.

Saturday, April 02, 2005

Íbis, Fénix ou gralha?

Fazer parar um instante, parar o tempo fazendo-o perdurar indefenidamente a meu bel-prazer, eis a minha grande ambição, a minha maior e mais ambiciosa ambição.
Sim, tenho um gosto pela eternidade. Serei, talvez, um espírito mumificante, um colecionador de flores secas, de pequenos lixos mas, especialmente, de momentos. Deleito-me ao abrir o meu álbum de fotografias móveis. Mas nem estas estão perfeitamente cristalizadas na eternidade dado que vão mudando de cor, como fotos comuns. Também a emulsão dos meus momentos vai mudando de tonalidade.
Mas que diabo de eternidade será esta? Simplesmente uma que não é, suponho. É e não é.
Retratos fiéis da existência e da essência, não importa qual veio primeiro, isto não revelarei...
Bela é a vida. Bela bem como feia, simultaneamente temente e temerária.
(Mas que importa se assim não for? Importa pois! Importará realmente?)
Íbis, Fénix ou gralha, qual será a mais nobre? Será, alguma delas, de facto mais bela?
Importa tudo por em causa para jamais ter certezas. (Importará deveras?)

Friday, April 01, 2005

Xamanismo

Nesta cidade de pedras, de cores, umas vivas, outras desmaiadas, passeio o meu espectro material. Material real; espectro fantasmagórico - efémera aporia, pois sou mortal.
Sou o esqueleto coberto de rendas de Rivera. Sou a sua Frida rompida da vagina até ao pescoço, altiva como uma rainha, coberta de sangue da cabeça (cheia de vento que faz rodopiar as folhas secas do Outono que tanto gosto de pisar para ouvir crepitar) aos pés.
(Será que sou mortal?)
Não sei se eu sou eu.
Náusea, vertigem, tontura, chão foge debaixo dos pés, palavras faltar, rodopio, queda no vazio, forte embate chão, fracturas em todos os ossos tornam imóveis membros do corpo. Ninguém para acudir. Não há outra possibilidade ou vontade para além da de permanecer jazida no chão tomada mais pela dormência do que pela dor. Finalmente um momento de resignação no minuto, ou na eternidade, que é a minha vida. Aprecio a planície branca que é o tecto. Planície branca resplandecente que, lentamente, vai formando contornos de núvens enquanto, por detrás, começa a despontar um azul ciano e estival. Levito a um palmo de altura do chão e sou embalada, muito suavemente, para a esquerda e para a direita, esquerda, direita, esquerda, direita... Adormeço. Sobrevoo campos, ora verdes, ora amarelos, florestas, umas luxuriantes e outras carbonizadas, uma Veneza desoladora, sem água. Vejo os lémures de Madagáscar e as tartarugas das Seychelles correm para a água. As aves observam-nas compadecidamente. Beijo um arco-írirs e retiro um bombom do pote que se encontra no fim deste. Sou atravessada por uma aurora boreal.
Finalmente as lágrimas libertam-se do cárcere dos sacos lacrimais, amnistiadas por tamanha e tão abundante beleza, escorrem-me, ainda agrilhoadas umas às outras, pela cara abaixo.
Esta jornada parece-me totalmente ateia. Será? Perspectiva? Introspectiva ou retrospectiva ou extrospectiva, pouco importa.

Thursday, March 31, 2005

Daimon

Como seria bom ver-me nos passos que tu desses
nas coisas que olhasses
ver-me reflectida na projecção do teu futuro

(como seria bom que tivesses futuro)

Por detrás destas pedras, o que habitará?
destas paredes
daquela janela
do cortinado absurdamente florido manchado pela humidade?
O que há para lá do teu olhar vazio
do teu cabelo desalinhado?
Que verás tu para além dos meus trajos
dedos
do meu sorriso escancarado?
O meu coração, será ele eternamente desabitado?
Terei morrido já?

Monday, March 28, 2005

NecrosCloris

Como será?
Qual será a sensação da lâmina fresca
(que logo fica quente)
prateada
(que logo fica vermelha)
a rasgar a carne
as veias
Qual será a ideia que surgirá quando estiver a esvair-me em sangue
Perdendo lentamente todas as minhas forças
Enquanto todo o meu corpo é invadido por uma dormência letal
Ninguém chora sobre as tábuas do meu chão
ou sorve o meu sangue por uma cana para que eu continue a viver no corpo
desse inexistente
consumidor
Esse consumidor com que sonho em vão
Zéfiro
por quem rogo que surja
levitando sobre o caminho de rosas espinhadas e urtigas que esmago
- plantas esmagadas por plantas.

Saturday, March 26, 2005

Meu querido António,

Como sentiremos a tua falta...
Vivi vinte e oito anos sem ti, e agora terei de continuar sem ti pela vida fora. Foste a promessa de permaneceres o amigo que se tinha revelado, e já te vais.
Ninguém abraçará alguma vez como tu - aqueles teus abraços com que nos acometias tão rapida e vigorosamente que ficávamos todos tortos, mas profundamente acolhidos nesse laço. Muito menos haverá "tiradas" crípticas como as tuas, também isso é certo.
Ninguém que te não tenha conhecido acreditará que não havia coração como o teu. Eras um verdadeiro gigante, um verdadeiro monstro de amor (e de humor). Todos os que te conheceram mostraram-te que era assim que te viam, pois jamais te refreaste de lhes mostrar o quanto gostavas deles. Por isto, e porque eras uma pessoa "resolvida", de bem contigo mesmo (e como não haverias de estar de bem contigo mesmo?!), foste feliz.
Assim, ontem e ante-ontem, ou estavamos em silêncio, ou falavamos sobre ti. (Eu e ela falámos sobre ti até adormecermos exaustas, no dia seguinte brindámos a ti e continuamos a falar e a pensar em ti, como todos os outros, certamente.) Porque deves ser a única pessoa que conheci que partiu sem deixar uma única coisa má no mundo. Só deixaste saudade. Mas saudade só se sente do que, de quem, é bom.
Sei que jamais quererias ver-nos tristes, e isso torna a tristeza inevitável.
Um grande beijinho e um daqueles abraços, meu amigo. Até sempre!

Wednesday, March 23, 2005

Amorphos

A verdade de verdade
é que só quero decompor-me
só quero evaporar
Porque quando o belo é Belo
não encontro palavras que lhe façam Justiça
E quando o feio é realmente feio
também me faltam os termos
para exprimir o horror
que vejo.
(E bebo novamente o espelho
E bebo novamente o espelho)

Tuesday, March 22, 2005

O Processo

A fobia da voz
- o léxico morre dentro de mim.
Procuro um objecto contudente
mas o lápis parte-se
a faca do papel repugna-me
e a caneta é demasiado bela.
A lágrima grita
enquanto escorre cara abaixo
Tens de fazer alguma coisa!
e eu sinto-me ainda mais diminuída
mais angustiada.
Os meus olhos colidem com o dicionário
Vou devorá-lo
Engoli-lo de um só trago
Sufocarei, decerto
Devoro-o, então.
E depois uma velha edição do Ulisses do Joyce, inglesa
uma recente tradução da Odisseia de Homero
a Teogonia de Hesíodo
as Ficções do Interlúdio
Os Lusíadas
A Política e A República
Mais duas obras da Silvia Plath
e muitos muitos poemas da Emily Dickinson
Finalmente estou obnubilada.
Já não devo ter de aguardar muito mais
para finalmente nascer.

Monday, March 21, 2005

Aridez lacrimejante

Que dizer... Se me perguntas tenho de admitir que as coisas não me correm bem: chamei novamente os ansiolíticos e os anti-depressivos para a dianteira do armário.
Só de ouvir a tua pergunta já fico com os olhos marejados - se me vires correr para a casa-de banho não te admires. Muito menos me perguntes o que se passou quando me vires regressar à mesa com os olhos ainda húmidos e brilhantes, pele ruborescida e nariz congestionado.
Não suporto pensar: nas alegrias de determinados momentos, nos trajectos sem sentido, nas portas fechadas, nos vidros partidos, no prato cheio quando o cão ladra de fome, a torneira que não pingará quando morrer de sede quando milhões morrem de sede, na teia sem aranha, no nado-morto... Não suporto.
O quê? É hoje o dia da poesia?