Nesta cidade de pedras, de cores, umas vivas, outras desmaiadas, passeio o meu espectro material. Material real; espectro fantasmagórico - efémera aporia, pois sou mortal.
Sou o esqueleto coberto de rendas de Rivera. Sou a sua Frida rompida da vagina até ao pescoço, altiva como uma rainha, coberta de sangue da cabeça (cheia de vento que faz rodopiar as folhas secas do Outono que tanto gosto de pisar para ouvir crepitar) aos pés.
(Será que sou mortal?)
Não sei se eu sou eu.
Náusea, vertigem, tontura, chão foge debaixo dos pés, palavras faltar, rodopio, queda no vazio, forte embate chão, fracturas em todos os ossos tornam imóveis membros do corpo. Ninguém para acudir. Não há outra possibilidade ou vontade para além da de permanecer jazida no chão tomada mais pela dormência do que pela dor. Finalmente um momento de resignação no minuto, ou na eternidade, que é a minha vida. Aprecio a planície branca que é o tecto. Planície branca resplandecente que, lentamente, vai formando contornos de núvens enquanto, por detrás, começa a despontar um azul ciano e estival. Levito a um palmo de altura do chão e sou embalada, muito suavemente, para a esquerda e para a direita, esquerda, direita, esquerda, direita... Adormeço. Sobrevoo campos, ora verdes, ora amarelos, florestas, umas luxuriantes e outras carbonizadas, uma Veneza desoladora, sem água. Vejo os lémures de Madagáscar e as tartarugas das Seychelles correm para a água. As aves observam-nas compadecidamente. Beijo um arco-írirs e retiro um bombom do pote que se encontra no fim deste. Sou atravessada por uma aurora boreal.
Finalmente as lágrimas libertam-se do cárcere dos sacos lacrimais, amnistiadas por tamanha e tão abundante beleza, escorrem-me, ainda agrilhoadas umas às outras, pela cara abaixo.
Esta jornada parece-me totalmente ateia. Será? Perspectiva? Introspectiva ou retrospectiva ou extrospectiva, pouco importa.